Há 42 anos, no dia 19 de agosto de 1983, um conjunto de mulheres lésbicas organizou uma manifestação que ficou marcada na história LGBTQIA+ no Brasil e representou um momento importante para a fundação do movimento lésbico no Brasil: o episódio do Ferro’s Bar. Essa data, que hoje é celebrada como o Dia do Orgulho Lésbico, nos oferece a oportunidade de refletir acerca da importância de preservar e difundir a história e a memória lésbica no Brasil.

Em 1983, o país estava sob o regime militar, fundamentado em um conjunto de valores definidos por discursos sobre moralidade pública, a proteção da “família tradicional”, entre outros. Apesar da transição política em curso, esse período caracterizou-se pelo recrudescimento da repressão e da censura voltada aos gays, lésbicas, travestis e transexuais, bem como aos debates de interesse desse grupo que pudessem favorecer a reflexão política.

Localizado na região central de São Paulo, o Ferro’s Bar era frequentado majoritariamente por lésbicas e tornou-se palco de um protesto liderado por ativistas do Grupo de Ação Lésbica Feminista (GALF). O evento foi uma resposta a uma tentativa de censura que ocorreu quando os donos do estabelecimento tentaram impedir que o boletim ChanacomChana fosse comercializado no local.

A publicação tinha caráter independente e conteúdo explicitamente lésbico, algo ousado para a época, levando em conta que o Brasil ainda vivia sob a repressão da ditadura. O boletim articulava debates políticos e culturais em torno da lesbianidade e do feminismo, apresentando análises críticas sobre a marginalização das mulheres lésbicas, a heteronormatividade e os limites do movimento feminista hegemônico. Além disso, incorporava produções literárias e poéticas que funcionavam como instrumentos de consolidação de uma identidade política coletiva.

O episódio do Ferro’s Bar simboliza um momento de enfrentamento e afirmação em meio a um contexto de silenciamento e perseguição. A escolha do 19 de agosto como Dia do Orgulho Lésbico é uma forma de honrar a coragem daquelas mulheres que desafiaram a repressão e reivindicaram seu direito de existir e amar. A data destaca a importância do ativismo lésbico no Brasil e reforça a necessidade contínua de luta por visibilidade e respeito.